terça-feira, 18 de novembro de 2008

Bispo de Guajará Mirim assina nota de apoio ao acampamento de sem terra de Seringueiras.



NOTA SOBRE OS ACONTECIMENTOS DE SERINGUEIRAS – RONDÔNIA
O Acampamento Paulo Freire, localizado na zona rural do município de Seringueiras/Rondônia, é constituído por um grupo de trabalhadores e trabalhadoras rurais, mulheres, crianças e idosos que, desde o final do ano de 2007, formaram este Acampamento chamado “Paulo Freire 03”.
Pois são os excedentes do “Paulo Freire I ” e “Paulo Freire II”, do município de Nova Brazilândia, também até hoje sem a regularização definitiva de seu pedaço de terra. Eles requerem a área conhecida como Riacho Doce, terra grilada por Sebastião de Peder e família e depois arrendada por um grande grupo empresarial pecuarista da cidade de Barretos, São Paulo.
O fato é que o INCRA, através da sua Superintendência, havia notificado à Advogada do Fazendeiro Sebastião de Peder, que adotaria os procedimentos legais para redestinar o imóvel ao assentamento das famílias e que teriam 15 dias, a partir do dia 15.05.2008, para desocupar o imóvel. Isso porque se trata de terras públicas, terras da União, terras do povo brasileiro, griladas, especuladas e mantidas como reserva de valor.
Mais que depressa, os fazendeiros da região se articularam e de tudo fizeram para tentar desclassificar o movimento dos trabalhadores e influenciar no despejo e reintegração de posse para o fazendeiro.
Depois de quatro despejos, um deles da beira da estrada, os sem-terra se uniram e compraram um alqueire de terra, à espera que o INCRA promova logo a retomada do imóvel para o assentamento das famílias.
Infelizmente, o que parecia ser a próxima realização de um sonho, tornou-se a concretização de um pesadelo. Graças à uma nova liminar do Juiz local, no dia 26 de junho de 2008, os trabalhadores foram surpreendidos por mais de 170 homens da Polícia que promoveram um violento despejo das famílias da área que os mesmos adquiriram.
O resultado deste despejo foi que o Sr. Lourenço Tony, idoso, passou mal na hora das bombas e dos tiros, tendo que ser internado vindo a falecer pela manhã do dia seguinte no hospital local. Outras dez pessoas, inclusive duas crianças e uma mulher gestante foram feridas naquela operação policial. Três trabalhadores foram presos, inclusive um idoso. Os trabalhadores despejados foram jogados numa chácara próxima à cidade de Seringueiras, impedidos de transitar. As hortas que haviam feito tiveram que ser abandonadas, pertences e documentos foram queimados, perdidos ou extraviados.

Três Inquéritos Policiais foram instaurados contra os sem terra. A liminar despachada pelo Magistrado de Justiça os obriga a ficar a 15 Km longe da fazenda..
Enquanto isso, mesmo o INCRA tendo notificado ao fazendeiro que desocupasse o imóvel, nada foi feito. Entretanto a Dra. Márcia, Ouvidora Agrária do INCRA, juntamente com o Superintendente, Dr. Carlinos Lima, afirmaram, perante o Juiz da Comarca de S. Miguel do Guaporé e de todos os Sem Terra do Acampamento, que a área era da União e que ia ser retomada pelo INCRA para o assentamento das famílias acampadas e cadastradas n Incra.

Diante destes repetidos despejos, os acampados e as entidades de apoio, cansados de tanta demora na solução deste grave problema, conclamam as autoridades competentes para que continuem o diálogo, afim de evitar novos despejos e possíveis enfrentamentos, que poderiam resultar em violentos conflitos, iguais aos que aconteceram em outros lugares.,
Os bens públicos da nação devem servir, antes de mais nada, ao seu povo, e a União, através de seus poderes, deve buscar os objetivos da própria Constituição Federal e, entre eles, o de erradicar a pobreza e a marginalização (Art. 2°,III da CF).
“Ai dos que transformam o direito em veneno e atiram a Justiça por terra”, clama o profeta Amós 5,7.
Que este clamor por uma verdadeira reforma agrária, com Justiça, Direito e Paz no campo, ressoe por toda esta Nação!

Seringueiras, 17 de Novembro de 2008


A Comissão dos Sem Terra - Orlando Pereira Sales, - Ismauro Fátimo dos Santos - Vagner Cassimiro de Souza, Adilson José dos Santos
Dom Geraldo Verdier, Bispo de Guajará Mirim e Seringueiras.
Padre Dr. Afonso Maria Chagas, Advogado Coordenador da CPT/RO
Irmã Martha Fiamoncini, Catequista Franciscana
José OSSAK, Conselho Estadual CPI/RO
Irmã Gema Grotto, Catequista Franciscana
Joaquim Pereira Carvalho, Vice-Prefeito de Seringueiras
Adão Aparecido da Silva, Presidente do STR de Seringueiras.

sábado, 15 de novembro de 2008

relatório sobre os impactos da produção de cana


A Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos lançam, no dia 18 de novembro próximo, a partir das 9h00, no auditório da APEOESP (ver endereço no final), um relatório minucioso sobre a expansão do monocultivo de cana na Amazônia e no Cerrado. O documento, contendo 80 páginas de dados, fotos e entrevistas, faz uma análise dos impactos sociais e ambientais dessa expansão e traz um relato detalhado do avanço deste monocultivo em 11 estados: Acre, Amazonas, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
A publicação será debatida e fará parte das análises da mesa temática que discutirá as alternativas em curso pelo mundo na construção da soberania alimentar e energética, durante o Seminário Internacional “Agrocombustíveis como obstáculo à construção da soberania alimentar e energética”. O evento, realizado pela Via Campesina e entidades parceiras, será realizado entre os dias 17 e 19 de novembro em São Paulo, e será um contraponto à Conferência Internacional "Biocombustíveis como vetor do Desenvolvimento Sustentável", convocada pelo governo brasileiro para promover o etanol nacional e tornar aceitável sua suposta "sustentabilidade" para o mercado global.
Em Rondônia há dois projetos de destilarias de etanol, nos municípios de Cerejeiras e Santa Luzia d'Oeste. Há outra usina no município de São Felipe, a 530 km de Porto Velho. Segundo Cléber Calixto, prefeito de Cerejeiras, “a cidade tem terras extremamente férteis e terá uma fábrica de etanol a partir de abril de 2009”.
Foto: A usina de São Felipe (RO) quando em construção, foto do Pe. Afonso.
O documento cita dados sobre o avanço das plantações de cana e de novas usinas de etanol instaladas na região, além de projetos de infra-estrutura, incentivos fiscais concedidos por governos estaduais, E parcerias de órgãos do governo com empresas brasileiras e estrangeiras. Estes dados são complementados por uma pesquisa de campo sobre os impactos para a população local e para os trabalhadores. O estudo traz informações sobre violações de diretos trabalhistas, casos de trabalho escravo, morte de trabalhadores e impacto na saúde dos canavieiros e da população.

Em relação aos impactos ambientais, o relatório faz uma sistematização de estudos recentes sobre os efeitos poluidores dos monocultivos, sobre a destruição da biodiversidade, dos solos e das fontes de água. Diversos estudos demonstram que a expansão de monocultivos representa um risco maior para o aquecimento global do que as emissões de carbono provenientes de combustíveis fósseis. A pressão cada vez maior sobre a fronteira agrícola da Amazônia e do Cerrado tende a aprofundar este problema.

Dados da expansão por estado
A monocultura da cana já é realidade em boa parte do território nacional. No Acre, a usina Álcool Verde, da empresa pernambucana Farias, plantou mais de 2 mil hectares de cana ao longo da BR-317 e tem planos de chegar a mais de 30 mil hectares na região, com capacidade de produzir 3 milhões de toneladas de cana por safra. A Álcool Verde prevê uma produção de 36 milhões de litros de etanol na primeira safra e pretende aumentar sua produção de cana em cinco vezes até 2015. A Embrapa prevê que no município de Capixaba as plantações de cana aumentarão em dez vezes até 2012. O estado é visto como estratégico, pois serviria de ponte de exportação de etanol para o Oceano Pacífico, através da rodovia Transoceânica, que conecta Brasil e Peru. No Amazonas, A CONAB estima que a produção de cana teve um aumento de 10,90% entre 2007 e 2008. Há ainda um projeto de produção de etanol da empresa Jayoro, que inclui o cultivo de 60 mil hectares de cana em regiões de floresta nativa.

Em Goiás, as plantações de cana ocupam 339,2 mil hectares. Entre 2005 e 2006, a área plantada de cana no estado teve um aumento de 47,06%. De acordo com o Sindicato da Indústria de Fabricação de Açúcar do Estado de Goiás (Sifaeg), na safra de 2008/2009 há 27 usinas em operação, com previsão de chegar a 55 usinas até 2012. Ao todo, há 97 projetos de novas usinas, com incentivos fiscais aprovados pelo governo estadual. O aumento na produção de etanol nesta safra será de 78%, chegando a 2,12 bilhões de litros. Além da destruição de mata nativa, o cerrado principalmente, a indústria da cana substitui áreas de produção de alimentos e criação de gado, o que, consequentemente, pressiona a fronteira agrícola para a Amazônia. No Maranhão, de acordo com dados do IBGE, entre 2005 e 2006, o cultivo de cana aumentou 20,93%. Em setembro de 2006, o governo do Estado criou o Programa Maranhense de Produção de Biocombustíveis, que previa a construção de 45 novas usinas, com estimativas de produzir entre 4 bilhões e 7 bilhões de litros de etanol. O governo cita ainda como vantagens as instalações do Porto de Itaqui, a Ferrovia dos Carajás e a Companhia Ferroviária do Nordeste. A primeira parte do projeto prevê a construção de 20 usinas em um prazo de cinco anos, o que representaria a expansão de 15% na produção nacional de etanol. Segundo o governador do Maranhão, o Estado poderia utilizar 500 mil hectares para plantação de cana.

Em Mato Grosso existem atualmente 11 usinas em funcionamento. As plantações de cana ocupam regiões do Pantanal, do Cerrado e da Amazônia, em uma área de 214.511 hectares. Na última safra, as usinas moeram em torno de 16.750.000 toneladas de cana. A Secretaria de Planejamento espera triplicar os atuais 800 milhões de litros de etanol. Segundo o Sindalcool-MT, há previsão de expandir as plantações de cana em cerca de dois milhões de hectares nas proximidades do município de Alto Taquari. Uma nova usina irá cultivar 35 mil hectares na região a partir de 2009, com capacidade para moer três milhões de toneladas de cana. Já no Mato Grosso do Sul, a CONAB estimou um aumento de 51 mil hectares nas plantações de cana na safra de 2007/2008, o que significou 32% a mais do que a safra anterior, que já ocupava 160 mil hectares. Há nove usinas instaladas e cerca de 50 novos projetos, com solicitações de incentivos fiscais, que poderiam ocupar 800 mil hectares nos próximos anos, de acordo com previsões da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agrário. Em agosto de 2008, o governador Antré Pucicnelli, afirmou que o "Mato Grosso do Sul será o maior produtor de álcool do mundo, em sete anos”.

Dados da CONAB indicam que a safra da cana em Minas Gerais em 2008 será de 60,2 milhões de toneladas. Essa quantidade é 47% maior do que a safra anterior. Com este aumento, o estado passou a ser o segundo produtor de cana-de-açúcar do país, com uma área plantada de 467 mil hectares. A produção de etanol em Minas Gerais deve chegar a 2,2 bilhões de litros este ano. Segundo o Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool, existem 36 usinas em funcionamento no estado. Até 2012, a previsão é chegar a 52 usinas, com produção de 5,5 bilhões de litros de etanol. O Secretário de Agricultura e Meio Ambiente do município de Luz, Dario Paulineli, descreve outros impactos na região. “A cana se expandiu rapidamente nos últimos anos. As empresas fazem contratos de arrendamento com agricultores e o impacto ambiental é enorme. Aplicam veneno de avião e atinge a população das cidades. Desmatam madeira de lei, plantam cana nas nascentes dos rios, não respeitam os estudos de impacto ambiental. Muitos animais estão morrendo com a devastação das matas”.

O estado do Pará, de acordo com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade São Paulo (USP), poderia dispor de 9 milhões de hectares para produção de cana, o que significaria um aumento de 136% na produção de etanol no Brasil. A CONAB estima que o Pará deve colher cerca de 736 mil toneladas de cana na safra de 2007/2008. A maior parte da produção (648,3 mil toneladas) é voltada para o etanol e somente 36,8 mil toneladas para a produção de açúcar. A usina Pagrisa, flagrada utilizando mão-de-obra escrava e responsável pela maior libertação de trabalhadores já feita até hoje pelo Grupo Móvel do MTE (1.064 pessoas), localizada no município de Ulianópolis, tem a maior plantação do estado, com 11,6 mil hectares, e produz 50 milhões de litros de álcool por ano. Segundo nota do Ministério das Relações Exteriores, “Não é à toa que a era dos biocombustíveis chegou com força total na Amazônia Legal. Não temos dúvidas de que o Pará provavelmente terá a plataforma de exportação do etanol mais competitiva do Brasil, que propiciará os maiores lucros para os investidores”. Em Rondônia há dois projetos de destilarias de etanol, nos municípios de Cerejeiras e Santa Luzia d'Oeste. Há outra usina no município de São Felipe, a 530 km de Porto Velho. Segundo Cléber Calixto, prefeito de Cerejeiras, “a cidade tem terras extremamente férteis e terá uma fábrica de etanol a partir de abril de 2009”.

Em Roraima há dois projetos de usinas em andamento, com previsão de cultivar cana em uma área de 90 quilômetros quadrados até 2009, com uma primeira safra de 3 milhões de toneladas. O governo de Roraima incentiva o setor e oferece isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) até 2018. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio indica que o leste de Roraima seria uma das principais áreas de expansão do plantio de cana. Políticos locais fazem pressão para que o governo federal transfira terras públicas para controle dos estados. A Biocapital iniciou uma plantação de mudas e espera produzir 6 milhões de toneladas de cana até 2014, que serviriam de base para processar 530 mil litros de etanol.A empresa pernambucana Camaçari Agroindustrial, cultivou 200 hectares de mudas na fazenda São Sebastião e pretende expandir a produção de mudas em 1000 hectares até agosto de 2009. A empresa obteve isenção de 100% do ICMS e sua previsão é produzir 3 milhões de toneladas de cana até 2009. Enquanto isso, no Tocantins, a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seagro), afirma que há 16 usinas interessadas em se instalar no estado. De acordo com o governo do Tocantins, o estado poderá utilizar 650 mil hectares para o cultivo de cana. A previsão é produzir 2 milhões de toneladas de cana até 2014. O Grupo Cucaú adquiriu uma área de 1.300 hectares e iniciou a produção em 2006, com uma safra de 250 mil toneladas, com previsão de expandir para 500 mil toneladas. A empresa Maity Bionergia prevê a construção de três destilarias de etanol, cada uma com capacidade para processar 2,4 milhões de toneladas de cana. Segundo a CONAB, houve um aumento de quase 16% na produção de cana no Tocantins, entre 2007 e 2008.

Informações:
Comissão Pastoral da Terra
(81) 9254-2212 / 3231-4445 (Renata Albuquerque)
(62) 4008-6406 (Cristiane Passos ou Marília Almeida)

Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
(21) 7699-3665 / (11) 8468-0910 (Evanize Sydow)

Serviço:
Lançamento do relatório “Os impactos da produção de cana no Cerrado e na Amazônia”, durante o Seminário Internacional “Agrocombustíveis como obstáculo à construção da soberania alimentar e energética”.

Data e horário: 18/11/2008, a partir das 9h00.

Local: auditório da APEOESP (Endereço: Praça da República, 282, São Paulo – SP)

Manifesto: Águas para a Vida e não para a Morte!

Complexo Madeira revela sua complexidade: etnocídio indígena anunciado com descaso criminoso do Ibama
As Organizações e Movimentos Sociais abaixo assinados, que defendem a Sustentabilidade da VIDA (IMV, KANINDÉ, MAB, MST, MPA, CIMI, RECID, CPT, CJP, ADA-AÇAÍ, GTA, COIAB, FOIR, ECOA, MHF, CASA, REDE BRASIL FRENTE INSTITUIÇÕES MULTILATERAIS), denunciam que o descaso do IBAMA e FUNAI que ignora suas próprias informações referente à presença de terras e povos indígenas isolados nas áreas de influência das usinas do Madeira pode levar ao etnocídio de Povos indígenas isolados e exigem anulação do processo de licenciamento.

A pressão a que o IBAMA tem sido submetido para a concessão das licenças ambientais, da usina de Santo Antonio ou a "parcial" da usina de Jirau, por parte dos Consórcios MESA e Madeira Energia (ENERSUS) colabora fortemente para a violação dos direitos fundamentais da pessoa humana. Nesse sentido, o Consórcio Enersus ameaçou não mais construir a hidrelétrica de Jirau caso a licença não saísse até dia 31 de outubro de 2008, para não perder a tal da "janela hidrológica" (Fonte: Valor Econômico – 29/10/08).

Como se não bastasse, o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, também tem "ameaçado" conceder a licença para o início das obras, sob pena da construção de mais térmicas a carvão. Somando-se ao coro da pressão, o Ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, “ameaça” a sociedade com a construção de novas usinas atômicas para forçar o Ibama a emitir a licença “parcial” da usina de Jirau.


Há um esforço orquestrado entre empresários e ministros, para viabilizar o "desmanche" da legislação ambiental, com a conivência do presidente do Ibama, Roberto Messias Franco, que concedeu duas licenças ilegais, a Licença Prévia das duas hidrelétricas e a Licença de Instalação da usina de Santo Antônio. Agora comete mais um crime ao assinar (em 13/11/08) a Licença de Instalação Parcial dos canteiros de obras e ensecadeiras para a UHE Jirau, sem estudos sócio-ambientais da alteração proposta pelo Consórcio vencedor e sem colocar em discussão na sociedade, em Audiência Pública, conforme prevê a legislação de licenciamento, comprometendo a sobrevivência física e cultural dos indígenas com ou sem contato na região. Como contrapartida, segundo Ministro Minc, o consórcio terá que adotar espécies em extinção como o tamanduá-bandeira, o tatu canastra, a onça pintada e o boto vermelho (Agência Brasil, 13/11/08). Mas, e as populações tradicionais, os indígenas isolados, quem os protegerá?



Todo esse processo conduzido à revelia dos movimentos sociais e dos ambientalistas, denunciado amplamente pela sociedade civil durante as audiências públicas de 2006, quanto à não menção de terras indígenas demarcadas e omissão da presença de Índios Isolados no EIA/RIMA elaborado por Furnas e Odebrecht, pode significar a responsabilização do Governo brasileiro por etnocídio indígena denunciado.

Com as mudanças internas na administração da FUNAI foi possível tornar pública a completa desconsideração da presença dos Índios Isolados, de mais 17 Terras Indígenas a jusante das duas hidrelétricas e outras ignoradas no corredor do Sistema de Transmissão.



O ofício da Fundação Nacional do Índio (Funai) encaminhado ao Ibama, em outubro de 2006, deixa explícito entre outras coisas: (i) que os estudos apresentados contemplam insuficientemente o componente indígena para o Complexo Hidrelétrico do Madeira, e, portanto, nos manifestamos (a Funai) contrariamente à emissão das Licenças Prévias para os empreendimentos das AHE's Santo Antônio e Jirau; (ii) pede audiências públicas especificas para os grupos indígenas a serem realizadas em Terras Indígenas; (iii) que há diversas Terras Indígenas na área de influência do corredor do Sistema de Transmissão Jirau - Santo Antônio - Cuiabá que deveriam também ser objeto de estudos ambientais; (iv) que os estudos devem considerar todas as terras indígenas na bacia do rio Madeira e no corredor do Sistema de Transmissão e não apenas aquelas próximas aos empreendimentos; (v) que outro aspecto importante é a presença de Índios Isolados na área de influência do Complexo do Madeira, a 14 quilômetros da Usina de Jirau, conforme denúncia da própria Funai.



Outro documento elaborado pela Coordenação Geral de Índios Isolados – CGII da FUNAI, datado de julho de 2008, vem reforçar as diversas manifestações de resistência da Campanha Popular Viva o Rio Madeira Vivo, da COIAB e GTA. Esse documento é um Plano de Trabalho para atividades previstas para as regiões onde há referências de Índios Isolados que sofrerão as interferências da UHE Santo Antônio. O texto revela que "os grupos de índios isolados e as terras onde habitam, passíveis de serem atingidos, pelas usinas, estão localizados à margem esquerda do rio Madeira, nas áreas Jacareúba/Katawixi e Mujica Nava/Serra Três Irmãos, em duas referências geográficas, no estado do Amazonas; e à margem direita, nas áreas no rio Candeias e nos igarapés Oriente, Formoso e Cachoeira do Remo (região das Terras Indígenas Karipuna e Karitiana e FLONA Bom Futuro), em três referências geográficas, no estado de Rondônia".

Consta desse documento da Funai, que dentre as 69 (sessenta e nove) referências existentes de Índios Isolados, 05 (cinco) estão na área de abrangência da UHE Santo Antônio, nos Estados de Rondônia e Amazonas, muitas delas em áreas de franco processo de invasão, a exemplo da Jacareúba/Katawixi.

Diante da existência destes documentos, exigimos que o Ministério Público Federal e demais instâncias de foro nacional e internacional, usem de todos os instrumentos legais para paralisar as obras e anular o processo de licenciamento do Complexo Madeira (hidrelétricas e sistema de transmissão) face ao desrespeito à Convenção 169 da OIT, às leis de nosso País, por afrontar o Direito à Vida dos Povos tradicionais, atingidos e ameaçados pelas obras. É inadmissível que em pleno século XXI sejamos agentes do etnocídio de povos desprotegidos, para dar sustentação ao capital especulativo que se mostra doente.



Defendemos que os Povos e o Rio Madeira continuem Vivos!



Águas para a Vida e não para a Morte!



Porto Velho RO, 14 de novembro de 2008.

sábado, 1 de novembro de 2008

Abençoada crise

Não sei como vamos nos dar em Rondônia com a crise mundial atual. Sempre os mais humildes acabam pagando mais caro. Porém por enquanto, a crise parece estar brecando um pouco o avanço do agro e hidronegócio.
A retirada massiva de capital especulativo tem feito cair o real e subir o dólar e o euro. Para nós, que trabalhamos com as migalhas da solidariedade dos países mais desenvolvidos, pelo menos o câmbio melhora, e as ajudas alcançam para um pouco a mais.
Tomara a crise também dê um pouco de fôlego para as comunidades resistir o avanço das multinacionais. A primeira hidrelétrica do Rio Madeira já começou em Porto Velho. Porém a segunda está demorando mais. Seja por brigas entre as empresas, seja por dificuldades financeiras, parece. Se atrasarem, muitos ribeirinhos ficaram um pouco aliviados. Também os indígenas isolados, antes de se encontrarem com as águas do Madeira alagando suas florestas. Nem sequer a existência deles tem sido reconhecida. E tem alguns que os chamam de selvagens.
Selvagem é este povo sem escrúpulos, este modelo que condena o povo ribeirinho a contaminação de mercúrio, a perder suas fontes de subsistência, a ver suas casas e terras alagadas.
Aqui na região, os que conhecemos o rio estamos acreditando que o Madeira vai dar o seu troco as hidrelétricas. Aconteceu com a construção da estrada Madeira-Mamoré, que hoje ficou engolida pela floresta. O rio todo ano muda de canal e abre novos braços e cortes, mudando a navegação. Poucos anos de vida vão ter os reservatórios com todos os sedimentos que chegam dos Andes bolivianos e peruanos. O Rio Madeira foi chamado assim pelos portugueses, pela imensa quantidade de paus e de madeiras arrastadas pela correnteza, que formam um verdadeiro rio de madeira na época da cheia, difícil de atravessar pelos barcos. Quero ver as turbinas engolindo as ilhas de tarope e a paulera que descem pelo Madeira.
A Margem , uma das principais empresas de frigoríficos de Rondônia e Mato Grosso, faliu. Lá fora, também aparecem notícias sobre empresas de biocombustíveis falidas, cana de açúcar e etanol freando a expansão, empresas de celulose renunciando as ampliações das monoculturas. Tomara seja certo que os agricultores possam pensar mais em plantar alimentos e não em produzir capim, etanol e celulose. Abençoada crise se ajudar os mais humildes viverem em paz!
Pe. J. Iborra, zezinho CPT RO