sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Insensatez na Região Amazônica


De: Omiglei da Silva
Em agosto de 2003, a companhia elétrica estatal brasileira Furnas e o conglomerado privado da construção Odebrecht apresentaram, em um seminário no Rio de Janeiro organizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), um projeto para um complexo hidrelétrico e uma hidrovia industrial no Rio Madeira, o principal afluente do Rio Amazonas.
Quase imediatamente, o Complexo Madeira foi promovido como o único projeto energético considerado “essencial” para evitar racionamentos de eletricidade no Brasil durante os próximos dez anos – assumindo, portanto, o papel que, até então, havia sido destinado à represa de Belo Monte, no Rio Xingu. Por mais de uma década, a Eletronorte, companhia estatal de eletricidade, tentou forçar a construção de Belo Monte driblando as disputas técnicas e legais e a forte oposição dos grupos ambientalistas e de direitos humanos. Para justificar a opção por essas mega – hidrelétricas, o governo e o setor privado utilizam a estratégia da ameaça do retorno do apagão, ocorrido nos anos 2001 e 2002.
Pelo fato de a Odebrecht ter sido uma das principais financiadoras da campanha presidencial de Lula e Furnas estar se beneficiando do compromisso assumido por ele de reintegrar o planejamento energético à burocracia elétrica estatal, o projeto Madeira foi revigorado pelo esforço, sem precedentes, do atual governo para forçar o seu processo de licenciamento ambiental a qualquer custo.
Apesar de adotar um discurso de sustentabilidade ambiental, com especial destaque a novos esforços para limitar o desmatamento da Amazônia, o governo Lula insistiu na construção das represas do Madeira, o que acabou por transformar a análise dos impactos do projeto em uma farsa absurda.
O Instituto Brasileiro do Meio ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) foi até mesmo desmembrado para assegurar a rápida aprovação de um projeto de duvidosa viabilidade ambiental, social e econômica.
A Amazônia tem uma história que sempre foi marcada por ambição, ganância, conflitos e trágicos erros cometidos por aqueles que ocupam o poder. Nos próximos anos, novas informações revelarão os interesses por trás do projeto e as manipulações para tentar justificá-lo. No entanto, neste momento, já se especula que, se o Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira continuar sendo construído, ele poderá, no futuro, ser considerado um dos mais devastadores e irreversíveis erros cometido pela administração do governo Lula.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Quatro anos passaram


Homilia de Dom Erwin Kräutler na Eucaristia celebrada por ocasião do quarto aniversário de morte de Irmã Dorothy Mae Stang NDdN.

Anapu, Prelazia do Xingu,
Igreja Matriz de Santa Luzia,
12 de fevereiro de 2009


Irmãs e irmãos caríssimos em Nosso Senhor Jesus Cristo,
meu bom Povo de Deus de Anapu, da Transamazônica e do Xingu,

Quatro anos passaram desde o assassinato de Irmã Dorothy. Morreu porque não estava de acordo que a Amazônia fosse loteada entre alguns grileiros. Sonhou sempre com uma Amazônia, terra de todos os povos que aqui vivem, terra herdada das gerações passadas indígenas e ribeirinhas, terra confiada a essa e às futuras gerações para que possam viver e sobreviver sem destruí-la. Nunca foi contra o “desenvolvimento“ como alguns queriam incriminá-la, mas queria um desenvolvimento sustentável. Ela entendeu esse termo como indicador de um desenvolvimento socialmente justo e ambientalmente responsável. Hoje já estamos mais cautelosos com o termo “desenvolvimento sustentável“ pois os seguidores do neoliberalismo já se apoderaram do conceito e usam-no como “fachada“ para encobrir a verdadeira intenção. Continuam acumulando e querem sustentar essa ambição através de sempre novas formas científicas e tecnológicas de exploração. Desenvolvimento tem para eles o sentido de sustentar a ânsia, a sede insaciável de riquezas. “Sustentável“ assumiu paulatinamente a conotação de salvaguardar a exploração sem sequer se lembrar dos primeiros habitantes da Amazônia, indígenas, quilombolas, ribeirinhos e seus direitos à educação, saúde, segurança, habitação, transporte. Dorothy entendeu desenvolvimento sustentável no sentido de “convivência“ com a natureza que Deus criou, de viver dela e com ela, cuidando dela e zelando por ela como se cuida do próprio lar em que vive e convive a família. Ela sonhou com a comunidade que se sustenta nessa Amazônia usufruindo do que ela oferece sem destruí-la, sem arrasá-la. Amazônia é uma região única no mundo e por isso merece todo o carinho. Por milênios e milênios o equilíbrio entre selvas e águas ficou intacto, a floresta deu seus frutos e sua caça, as águas os peixes e mariscos. Até que um dia a ambição de dominar e subjugar a natureza e a ganância subverteram os homens e os fizeram perder a vergonha. Daqui em diante não foi mais o zelo e o cuidado, o amor pela terra e o carinho pelas futuras gerações que moveram os corações e estabeleceram as normas de convivência, mas é o lucro imediato, sem dó e piedade, sem cuidado e cautela, sem remorso ou arrependimento, que dita as regras. Violentaram a mãe-terra e estupraram a mata-virgem.

Não faltam vozes que denunciam os crimes e acusam os criminosos. Não faltam vozes que defendem a terra e a selva, os rios e os lagos como lar dos povos da floresta. Mas os criminosos não aceitam o “oráculo do Senhor“ de quem fala em nome do Deus Criador. Matam e ameaçam matar a quem se opõe à sua ganância, a quem sonha com uma Amazônia, lar de todos os povos, de comunidades que sabem viver em harmonia com o mundo que Deus criou e nos confiou.

Dorothy, a Irmã, morreu, dando a sua vida pela causa das famílias de pequenos agricultores, seus irmãos, suas irmãs. Dema, pai de família, morreu defendendo a região do Xingu como lar de sua mulher, suas filhas e seus filhos. Ambos tornaram-se mártires da Amazônia pela Amazônia, do Xingu pelo Xingu.

Mas o sangue derramado engendrou uma luta que nunca mais parou. Em vez de deixar-se amedrontar pelos que causam a morte, e lugar de deixar-se intimidar e bater em retirada, o povo se organiza e conquista seus direitos. Sepultamos os mártires, mas o grito por uma sociedade justa e pela defesa do meio-ambiente tornou-se um brado ensurdecedor. A morte gerou vida, trouxe novo alento para a luta. “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto“ (Jo 12,24). Surgiram e surgem cada vez mais mulheres e homens nesta Amazônia que de cara erguida enfrentam os inimigos da Amazônia. Os emissários dos grandes projetos não conseguem convencê-los nem cooptá-los, pois seus argumentos são inbatíveis. Indígenas, ribeirinhos, povo do campo e da cidade, mulheres e homens, jovens e idososos vão a luta pela vida contra a morte, pela Amazônia contra a sua devastação.

O que São Paulo escreveu aos Coríntios, repetimos hoje na Amazônia: “Somos amaldiçoados e bendizemos“ (1 Cor 4,12), O que os inimigos podem fazer? Sua maldição não surte efeito, pois nossa resposta é “bênção“, “bênção“ para a Amazônia agredida, “bênção“ contra a praga da destruição, do sacrifício inescrupuloso do Xingu, “graça“ contra a desgraça dos grandes projetos, “vida“ contra a morte que querem decretar para o rio e seus povos.

Também repetimos com São Paulo: “Somos perseguidos e suportamos“ (1 Cor 4,12). A perseguição foi e é a logomarca do profetismo, das mulheres e dos homens que acreditam e defendem um mundo diferente. Quem hoje grita “Um outro mundo é possível“ e dá testemunha desta sua convicção, agride o sistema estabelecido e prega a morte de estruturas que põem em risco todo o planeta. E sabemos que esse sistema se vinga e persegue e tantas vezes mata. Se nossa Igreja deixar de ser perseguida é sinal de que ela se acomodou e renunciou à sua vocação profética. Proclamar que tudo já é “paz e amor“ e dar-se conta de que o sistema já não reage mais deixando de perseguir, é sinal de que a Igreja perdeu sua audácia, sua intrepidez, sua ousadia, sua coragem, sua paixão pela causa do Reino, sua “parrhesia“ (cfr. At 4,13; 4,29; 4,31; 9,27; 13,46; 14,3; 19,8; 26,26; 28,31). “Suportamos“ porque acreditamos que o “outro mundo possível“. E esse “outro mundo“ que “é possível“ coincide para nós com o Reino de Deus, é a realização do sonho de Jesus, é o anúncio e o testemunho da Boa Nova do amor de Deus, da fraternidade, da solidariedade para toda a família humana. “Enviada por Cristo“, a Igreja tem por missão de “manifestar e a comunicar a todos os seres humanos e povos o amor de Deus“ (AG 10).

E ainda mais repetimos com São Paulo: “Somos caluniados e consolamos.“ (1 Cor 4,13). A calúnia, a difamação foi e continua sendo o método empregado pelos inimigos do Reino de Deus, do “outro mundo possível“. Inúmeras foram as calúnias que antecederam a morte de Irmã Dorothy. As mensageiras, os mensageiros da Boa Nova são criminalizados, até demonizados. Nada de novo! O próprio Jesus foi acusado de ser “louco“ (Mc 3,21) e de agir “pelo poder de Beelzebu, o chefe dos demônios“ (Lc 11,15). Mas é exatamente nesta fase, em que gritam contra as discípulas e discípulos de Jesus, quando escarram em nosso rosto e usam de todos os meios para conspurcar nosso bom nome cobrindo-nos de injúrias, é que sentimos, como nunca, a presença de Deus e ouvimos sua voz: “Eles lutarão contra ti, mas nada poderão contra ti, porque eu estou contigo – oráculo do Senhor – para te libertar“ (Jr 1,19). É nesta noite escura que o próprio Jesus dirige sua palavra a Paulo apóstolo: “Não temas. Continua a falar e não te cales. Eu estou contigo...“ (At 18,9). A nossa fé inquebrantável na presença de Deus é nosso consolo e ao mesmo o motivo de consolarmo-nos uns aos outros. Esta é a nossa mística. Só Deus mesmo consola e na medida em que nos deixarmos inspirar por seu Espírito consolamos também os oprimidos, estendendo-lhes as mãos e abrindo-lhes o coração. E quando falamos em oprimidos, “já não se trata simplesmente do fenômeno da exploração e opressão, mas de algo novo: da exclusão social. (...) já não se está abaixo, na periferia ou sem poder, mas se está de fora. Os excluídos não são somente “explorados”, mas “supérfluos” e “descartáveis” (DA 65).

Somos cidadãs e cidadãos do Reino, do “outro mundo possível“ em que acreditamos. Esse direito à nossa fé ilimitada e irredutivel, conquistado pelo Sangue do Senhor, ninguém jamais será capaz de arrancar-nos das mãos e do coração.

Amém.