domingo, 22 de novembro de 2009

Ataques contra bispo e padres de Guajará Mirim em São Francisco do Guaporé - Ro

ATAQUES CONTRA BISPO E PADRES DE GUAJARÁ-MIRIM
EM SÃO FRANCISCO DO GUAPORÉ - RO

O povo católico de São Francisco do Guaporé ficou revoltado pelos ataques e calúnias contra seu Bispo, Dom Geraldo Verdier, contra um padre de sua diocese, Padre Josep Iborra Plans (Pe. Zézinho) e contra o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), por parte de políticos do Município de São Francisco e por um Deputado Estadual de Rondônia.
A Audiência Pública, convocada pela Câmara dos Vereadores, aconteceu no dia 7 de novembro de 2009, na Linha 6 de Porto Murtinho, na Escola Polo Pereira e Cáceres, com a presença de 150 pessoas. O Senador Valdir Raupp e a Deputada Marinha Raupp estiveram presentes numa parte da audiência. Foi depois da saída deles que o ambiente se tornou de uma violência intolerável, chegando até à instigação do povo para a efusão de sangue! Vamos aos fatos.
1. Ausência do Bispo na Audiência
O Senhor Prefeito de S. Francisco do Guaporé, Sr Jairo Borges Faria chamou a atenção do Bispo Guajará-Mirim de modo inconveniente : “Cadê a Igreja? Cadê o bispo? Eu quero o bispo aqui explicando para a gente o que realmente está acontecendo, porque eles querem tomar nossas terras! Porque o Bispo não veio a esta audiência?
- Senhor Prefeito, em 31 anos de administração diocesana, jamais falhei a um compromisso assumido. Jamais fugi de uma situação de crise, de violência, de injustiça atingindo meus diocesanos. Se não estive presente em São Francisco (1.000 km de Guajará), é simplesmente pelo fato que o Presidente da Câmara não me informou, nem me convidou por internet, telefone ou fax, nem por intermédio do Pe da Paróquia, Pe Francisco Trilla.
Quanto à grave acusação : “Estes padres não gostam de quem planta na terra, eles querem que a gente passe fome, se humilhe na fila do sopão, que a gente fique mendigando e passando necessidade”, estas palavras demostram que Va Excia não conhece a atuação dos padres, das Irmãs e dos leigos voluntários da Igreja Católica nesta região, desde 1932. A Igreja mantém obras sociais e promocionais como o HOSPITAL BOM PASTOR (45 anos) e a Escola Profissionalizante “CENTRO DESPERTAR” (20 anos) em Guajará-Mirim, para 500 alunos, e agora está formando 1.000 operários, a pedido da Firma “Camargo Correia”, para a Barragem de Jirau. A diocese construiu, ainda em Guajará-Mirim, uma bela e espaçosa casa para os anciãos, a CASA SÃO VICENTE DE PAULO. Além do mais, criou em Costa Marques, há quarenta anos, um JARDIM DE INFÂNCIA, “BEIJA FLOR”, que forma 350 crianças, a maioria de famílias carentes. Em termos de promoção social, o padre Zezinho espalhou dezenas de placas solares para os ribeirinhos e colonos do Vale do Guaporé, e por iniciativa dele um grupo de 26 agricultores das paróquias desta região, dois deles das Linhas de Porto Murtinho, são beneficiadas por um projeto de agroecologia. Também a Igreja Católica tem financiado a construção dos dormitórios da Escola Família Agrícola (EFA) de São Fancisco do Guaporé. Temos ainda um escritório para a documentação dos Bolivianos no Brasil e uma equipe que financia telhados para os carentes, construindo sua primeira casa.
E quando Va Excia fala de “humilhar-se na fila do sopão”, lembro que aqui, em S. Francisco do Guaporé, o Irmão José Maria Sala atende no seu sopão, há quase 7 anos, com recursos próprios e do povo generoso desta cidade, 2 vezes por semana, 30 famílias carentes! Sopão que, infelizmente, poderá ser fechado por falta de ajuda suficiente, pois recebe apenas 400 RS mensais de vossa administração municipal.

2. Graves acusações do deputado Estadual Lebrão
O senhor José Eurípides Clemente (deputado Lebrão) foi mais contundente ainda em suas ofensas e acusações. Isto me choca tanto mais, este que sempre me manifestou respeito e atenção. Nesta Audiência Pública ele passou dos limites.
O primeiro ataque frontal foi contra os estrangeiros: “Não sei por que têm tantos estrangeiros aqui nessa região? Eles são todos espiões! Querem explorar nossas riquezas”.
Deputado, todos entenderam que Va Excia se referia ao bispo e aos padres Claretianos da região. Dizer que “são todos espiões” é uma calúnia e uma injustiça que ofendem toda a Igreja Católica!
Enquanto ao número de estrangeiros, quero salientar o seguinte: Pe José Roca, Irmão José Maria, Pe Zézinho e eu mesmo somos naturalizados brasileiros. Uma vez aposentado, pretendo deixar meus ossos na beira do Guaporé, nesta terra e no meio deste povo que amo e que me manifesta tanto carinho. Para tranquilizá-lo, informo que os três quartos de meus padres são brasileiros natos!
Nem acreditei quando li no relato da Audiência esta afirmação que muito me chocou: “Basta olhar para os meninos de olhos azuis correndo por ai e perguntar de quem são filhos?”. Esta infeliz ironia machucou o povo católico que conhece a dignidade de vida de nossos padres e sua dedicação.
Enfim a declaração mais grave: “Vocês, moradores, precisam defender suas terras com unhas e dentes, nem que corra sangue na canela!”. Deputado, esta incitação à violência dá a impressão que regredimos num tempo em que a Amazônia era uma terra sem lei! O que não é o caso, o senhor bem sabe!

Tudo isso me deixou estarrecido! Passamos agora à posição da Igreja no conflito entre colonos e índios, que motivou a Audiência Pública: .

Sabemos que anos atrás, ali no Limoeiro e no Rio Mané Correia , tinha índios e foram expulsos de suas terras. A história nos diz isso e os documentos o comprovam.
Sabemos que muitos posseiros, vieram de outros lugares à procura de um pedaço de terra para o sustento de suas famílias, sem saber se ali seria área indígena ou não. Muitos morreram com malária e outras doenças. Outros não suportaram o sofrimento e foram embora. Mas muitos resistiram às doenças, estradas ruins, dificuldades financeiras e etc. E hoje, essas pessoas se encontram com a grande preocupação de perderem suas terras.
A igreja, nem o CIMI, tem poder de decidir se as terras voltam para os índios ou se ficam com os posseiros. Isto é privilégio e dever dos orgãos governamentais, que só respondem pela demarcação de terras.
Portanto, a Igreja e o CIMI não respondem pela demarcação de terras, como alguns dizem ou pensam. A Igreja, porém, não pode ficar fora da luta. Ela sempre está e estará ao lado dos mais injustiçados e sofridos.
Nós, Bispo, Padres, Irmãs, missionários leigos, brasileiros e estrangeiros não possuímos nenhumas terras aqui. Somos simplesmente enviados em missão de evangelizar e de lutar por um mundo mais justo.
O Padre Zezinho, o mais criticado, tem visitado as comunidades dos ribeirinhos e ajudado naquilo que ele pode. Não existe nenhum político que tenha feito um trabalho a favor deste povo ribeirinho (saúde, reconhecimento das comunidades quilombolas e placas solares) como o padre Zezinho, povo esse, que muitas vezes fica abandonado pelos políticos.
Nós como Igreja, vamos continuar fazendo a nossa parte. Por isso, diante dos fatos ocorridos, declaramos que:
· Os Índios Puruborá têm o direito de recuperar uma parte das terras que lhes tiraram; e os Índios Miguelenos têm o direito de voltar à área do Limoeiro que eles reivindicam.
· Nenhum pequeno produtor que conseguiu sua terra com esforço e dignidade, perca esta terra ou seja prejudicado.
· As autoridades responsáveis pela demarcação de terras agilizem esta demarcação, para que todos, índios e colonos, tenham paz e possam viver como irmãos.
· Qualquer pessoa, antes de acusar a Igreja, procure conhecer o trabalho que ela realiza com amor e justiça há décadas!

Dito isto, vamos continuar, com serenidade e confiança em Deus, o nosso trabalho de evangelização e lutar, sem ódio, mas com firmeza, por um mundo de justiça, solidariedade e paz.

São Francisco do Guaporé, 20 de novembro de 2009

Dom Geraldo Verdier
Bispo de Guajará-Mirim

sábado, 21 de novembro de 2009

Audiência Pública sobre o território miqueleno

São Francisco do Guaporé, 18/11/09

No dia 07 de novembro de 2009, a câmara dos vereadores de São Francisco promoveu uma Audiência Pública sobre a demarcação de terras dos povos indígenas puruborás e miquelenos, na linha 6 do distrito do Porto Murtinho. Estavam presentes no evento, autoridades de Seringueiras, São Francisco e Costa Marques; além do superintendente do Incra, João Luiz Esteves, deputado Lebrão, deputada Marinha Raupp e o senador Valdir Raupp.
O presidente da câmara, Ivo José, deu início ao evento dizendo que o objetivo da Audiência Pública era esclarecer para os moradores do setor do Porto Murtinho o andamento do processo de demarcação que começou em 2005. Sobretudo, fazer um abaixo-assinado para que seja aprovada a PEC 38/1999, que diz que toda demarcação de terras indígenas tem que passar pelo senado.
João Luiz – Incra, disse que não existe nada oficial sobre esse processo, que na verdade o que foi realizado em 2005 não passa de um levantamento para caracterização da região em que viviam os povos das duas etnias. Reforça ainda, que o Incra está trabalhando normalmente, continua com a regularização fundiária e com o Programa Terra Legal.
Valdir Raupp, diz que não é contra a criação de Reservas Biológicas, desde que isso não atrapalhe a vida de ninguém. Que a verdadeira área dos indígenas é o Limoeiro, e que é pra lá que eles devem ir, assim não prejudicaria ninguém. O único documento que existe oficialmente até agora é um relatório feito por uma antropóloga da Funai, mas que ninguém além da Funai, teve acesso a tal documento.
Marinha Raupp, diz que o importante é que os produtores não parem suas vidas por conta disso, que eles não devem vender suas terras e que continuem plantando. É necessário que o GT (grupo de trabalho) da Funai saia o quanto antes, para esclarecer de uma vez por todas a situação das terras aqui do Porto Murtinho.
O vereador Tonhão diz que tem alguém por trás da Funai. - “Sou obrigado a dizer que a igreja católica e o Pe. Zezinho são os responsáveis a incentivar os indígenas a entrar com o pedido de demarcação de suas terras”. Que existe muitas reservas já criadas, que “esse povo” deve ir pra lá, pra bem longe e deixar a nossa terra em paz. Pediu para que todos os católicos ficassem de pé, afirmando que é católico, e que não acho certo o que a Igreja vem fazendo com eles, querendo tomar suas terras.
O deputado Lebrão, diz que não existe terra indígena no Porto Murtinho (com deboche). A Funai quer criar uma reserva a qualquer custo, sendo que nem os índios querem voltar para onde eles saíram. Que temos que pensar no desenvolvimento regional, que aquele maconheiro (ministro do Meio Ambiente – Carlos Minc) só atrapalha. Que o Pe. Zezinho ameaçou o Gerson Paulino (produtor do porto) dizendo que se alguma coisa acontecer a ele, este seria o responsável. Não sabe por que têm tantos estrangeiros aqui nessa região (se referindo aos padres), que eles são todos espiões. Querem explorar nossas riquezas. Basta olhar para os meninos de olhos azuis correndo por ai e perguntar de quem são filhos. - Vamos desmembrar a reserva do Cautário intensificando o plano de manejo. Que a criação de reservas biológicas só barram o desenvolvimento. Vamos transformar o corredor ecológico da BR 429 em corredor de exploração. Vocês moradores, precisam defender suas terras com unhas e dentes, nem que corra sangue na canela. O CIMI e a Funai estão fugindo, só fazem barulho lá, mas na hora “H” sobra para nós vereadores e prefeitos descascar o abacaxi.
Fala de Jairo: Vamos mandar os índios para a fazenda Pau d´olho, para o Limoeiro. Eu não falo mal da igreja não, mas de uma pessoa que está por trás da igreja, um padre, é ele que está fazendo todo esse inferno. Cadê a Igreja pra se pronunciar, cadê o Bispo? Eu quero o bispo aqui explicando pra gente o que realmente está acontecendo, porque eles querem tomar nossas terras. Eu quero que eles venham aqui dizer que não querem tirar as terras de ninguém. Por que ele (bispo) não veio nessa audiência? Cadê o padre? Eu vou contar uma historia minha gente, que com certeza a historia de cada um de vocês aqui. “O meu pai vendeu tudo no Paraná e veio para Rondônia; comprou 200 hectares de terra. Desmatou, queimou, se sacrificou pra criar seus filhos, e de repente aparece um padre na casa dele e diz que aquela terra não era dele, que era dos índios e que ele tinha que sair de lá”. Esses padres não gostam de fazendeiros, eles não gostam de quem planta na terra, eles querem que a gente passe fome, se humilhe na fila do sopão, que a gente fique mendigando e passando necessidades.
A Audiência se manteve civilizada até o momento em que estavam presentes a Marinha e Valdir Raupp, quando estes foram embora começaram as falas com total falta de ética dos vereadores, prefeito Jairo e deputado Lebrao. Termina com os católicos todos indignados. Uns acreditando em tudo o que foi falado, dizendo que se o Pe. Zezinho aparece no porto Murtinho ele não sai vivo, e, outros dizendo que não havia necessidade disso acontecer, que quando a poeira já estava baixa, vêm esses políticos e pioram tudo. Como vai ficar a Igreja Católica agora? Enquanto ia acontecendo as falas acaloradas e completamente sem ética dos políticos, as folhas de baixo-assinado ia passando pelos moradores. Na minha opinião, eu acho que essa reunião não passou de intenção política, eles queriam aproveitar que o Valdir, Marinha e Lebrão estavam presentes na cidade para falar sobre as obras do município e organizaram essa audiência tendo o abaixo-assinado da PEC como fundo. Desde então, os católicos que estão se sentindo imensamente ofendidos, pedem um posicionamento da Igreja para que eles possam se defender.
Nota: Nem Dom Geraldo, nem o Pe. Zezinho, nem o CIMI, nem as lideranças dos miquelenos, não foram convidados.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Casa incendiada no assentamento Jequitibá, Candéias do Jamari




Registramos o ocorrido no assentamento no Projeto Jequitibá, localizado, no Município de Candeias do Jamari, onde a casa do camponês, José Dionisio Fernandes, foi incendiada com todos seus pertences, inclusive seu carro, bicicleta e animais, ocorrido no dia, 01 de novembro de 2009.

É o primeiro assentamento Agroflorestal, criado em junho de 2007 pelo INCRA. Como modelo na Amazônia. Para o assentamento de 597 famílias.

Fazendeiros e Madeireiros interessados nas terra, estão ameaçando e agindo com violência contra as famílias do local.