segunda-feira, 30 de maio de 2011

Hotel de Porto Velho foi incendiado por funcionários das usinas

Foto: Cleris Muniz / Imagem News
A notícia abafada na capital que hotel de Porto Velho teria sido incediado este mês por funcionários da Camargo e Corréia, foi reconhecida pela empresa. Enquanto agora se acusa ladrões de ter provocado a revolta de Jirau, para saqueiar os caixas eletrônicos do canteiros de obras recheados com o pagamento dos salários. veja matéria


Obras de Jirau abrigavam bandidos, diz polícia

Por André Borges (O Estadão de São Paulo) 
Depois de 70 dias da rebelião que pôs abaixo o canteiro de obras da hidrelétrica de Jirau, ainda há muitas dúvidas sobre os autores e as razões que, de fato, deflagraram a onda de violência. Algumas conclusões preliminares, obtidas por investigadores que acompanham de perto o caso, dão uma ideia da gravidade que rondava uma das principais obras do país.
Entre os trabalhadores de Jirau havia casos de pessoas procuradas pela polícia. Trata-se de fugitivos que cometeram crimes em Rondônia e também fora do Estado. Um dos identificados pelos investigadores foi autor de dois homicídios. Os peritos também já sabem que o tráfico de drogas, como maconha e cocaína, era usual nos alojamentos do canteiro de obras. Bebidas alcoólicas, que são proibidas no local, também circulavam no mercado paralelo.
Essas informações foram confirmadas pelo delegado Hélio Teixeira Lopes Filho, diretor da divisão de repressão ao crime contra o patrimônio da Polícia Civil. Ele é responsável pelas investigações dos atos de vandalismo em Jirau. Segundo o delegado, atualmente a polícia trabalha na identificação de um grupo de 150 a 200 pessoas que participaram diretamente das ações. Depois da rebelião, algumas dezenas foram detidas pela Polícia Civil, mas não há informações se alguém ainda permanece preso. Para apoiar as investigações, vídeos gravados por câmeras de segurança e depoimentos de funcionários foram coletados.
O inquérito da Polícia Civil já soma 12 volumes, com 200 páginas cada um. Outro inquérito está em andamento pelos investigadores da Polícia Federal, sem prazo para conclusão.
Mais do que identificar os autores, a principal resposta que os peritos procuram são as motivações que desencadearam os atos. A tese inicialmente sustentada - de que uma briga entre dois funcionários teria detonado a onda de conflitos - já está totalmente descartada. São muitas as evidências de que houve uma ação coordenada e com data certa para ocorrer.
Em março, quando a confusão tomou conta de Jirau, a construção da usina estava no seu pico de contratação, com 22 mil trabalhadores na obra, dos quais 19 mil estavam sob responsabilidade da Camargo Corrêa. "A revolta arrebentou exatamente no dia de pagamento de salário, quem fez sabia que os caixas automáticos estavam abastecidos", comenta Lopes Filho. Durante o corre-corre, quatro dos dez caixas instalados no canteiro de obras foram arrancados de suas bases e levados por um caminhão até a oficina do canteiro, onde maçaricos já estavam a postos para cortar a porta dos cofres.
A Polícia Civil já identificou quatro pessoas que participaram dessa operação. Ainda não há informações sobre quanto dinheiro foi roubado. Em data de pagamento, os caixas de Jirau costumavam ser abastecidos com até R$ 1,5 milhão, ou seja, cada caixa automático era alimentado com cerca de R$ 150 mil.
A partir dos depoimentos colhidos até agora, a Polícia Civil detectou que a tensão entre os trabalhadores no canteiro de obras já era grande antes da rebelião. "A situação estava complicada, havia reclamações sobre diferenças salariais e benefícios, além de relatos de tratamento com muita truculência junto dos trabalhadores", comenta o delegado Lopes Filho.
Enquanto investiga o passado, a polícia mantém atenção total sobre qualquer movimento suspeito nas obras do Madeira. Na semana passada, a tensão voltou a rondar os trabalhadores da usina. Em Porto Velho, a 120 quilômetros do canteiro de obras, um hotel foi incendiado por funcionários da Camargo Corrêa que estavam hospedados nele. O clima de apreensão chegou até o canteiro de obras da usina e a boataria se espalhou rapidamente entre os trabalhadores. Lopes Filho afirma que a Polícia Civil foi acionada e chegou a enviar polícias até o local. Não houve registro de ocorrências.
A Camargo Corrêa, responsável pelas obras de Jirau, informou que havia 80 funcionários seus hospedados no hotel de Porto Velho e que dez deles foram, de fato, responsáveis pelo incêndio. Segundo a companhia, o fogo foi rapidamente debelado e não houve feridos. Os dez funcionários foram imediatamente demitidos.
A Camargo Corrêa negou que o clima entre os trabalhadores que estão no canteiro de obras tenha voltado a ficar ruim na última semana. Sobre as investigações que apontam que havia foragidos da polícia entre seus funcionários, além de tráfico de drogas, a empreiteira informou que se baseia única e exclusivamente na experiência profissional de seus funcionários para critério de seleção e que não fiscaliza a vida dessas pessoas, algo que a própria Constituição não permite.
Segundo a empresa, todas as suas contratações são realizadas com base no Sistema Nacional de Emprego (Sine), o cadastro de trabalhadores elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A construtora informou que algumas empresas terceirizadas de recrutamento também foram usadas para levar mão de obra até Jirau, mas essas também teriam se baseado no cadastro do Sine. O Valor procurou o MTE para se pronunciar a respeito do assunto, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.
A Energia Sustentável do Brasil (ESBR), consórcio responsável pela construção de Jirau, informou que as atividades no canteiro de obras seguem normalmente e que, aos poucos, os funcionários têm retornado para a construção. Atualmente, segundo a ESBR, há 10,5 mil trabalhadores atuando nas margens no Madeira. Questionada sobre as investigações, a ESBR informou que aguarda o resultado dos dois inquéritos para se pronunciar a respeito.
Vizinho de Jirau, o consórcio Santo Antônio Energia, que toca as obras da hidrelétrica de mesmo nome, informou que nunca tomou conhecimento de casos de tráfico de drogas dentro do canteiro de sua obra e que desconhece que haja foragidos da polícia em seu quadro de funcionários. A empresa informou ainda que, "como medidas de prevenção e educação ao trabalhador, o Consórcio Santo Antônio realiza frequentemente campanhas internas de combate às drogas" e que, em suas contratações, "não faz nenhuma discriminação por raça, cor ou qualquer outra característica".

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