quinta-feira, 24 de abril de 2014

A Vida Consagrada em Porto Velho celebra o tríduo Pascal com as comunidades atingidas pelas enchentes no Baixo Madeira!



Por Irmã Gabriella Bottani – Missionária Comboniana, coordenadora da Rede um Grito pela Vida e agente da Comissão Pastoral da Terra-CPT/RO. 

A ideia de celebrar o tríduo pascal junto com as comunidades ribeirinhas do Baixo Madeira nasceu em outubro de 2013, durante um encontro da equipe dos missionários e missionárias combonianos que acompanham esta região. A proposta foi amadurecendo e partilhada com a vida consagrada do núcleo da CRB de Porto Velho. Um pequeno grupo aderiu e assim o dia 15 de Abril de 2014, com o barco Caçote um grupo de 4 irmãs deixou Porto Velho rumo a Terra Firme (distrito de Calama) e Tira Fogo (distrito de Nazaré): ir. Zezé (Calvariana) e ir. Xóchitl (Filhas da Cruz), ir. Gabriella (Missionária Comboniana) e ir. Adélia (Paulinas). Os padres Combonianos Jorge e Rafael já estavam em Calama e Boa Vitória esperando por nós.
Na mesma semana ir. Vera e ir. Nair (Irmãs do Verbo Encarnado), junto com pe. Jorge (Missionário Comboniano), visitaram a escola Orlando Freire, que acolhe parte dos desabrigados do distrito de São Carlos. 
A situação provocada pelas enchentes deste ano deu um valor especial a esta primeira experiência missionária: pois partilhamos a paixão, morte e ressurreição de Jesus na vida concreta de quem está sofrendo por causa da grande enchente. Nestes poucos dias nos deixamos acolher pelas pessoas que ficaram nas “terras altas”, lugares que se tornaram espaço de solidariedade e de esperança. Partilhamos com eles o dia-a-dia, a fé e a vida. Tomamos o banho com a água do Rio Madeira e bebemos pouco, pois a água potável que a defesa civil entrega é racionada e insuficiente. Pouca energia elétrica, somente quando há um dinheirinho para colocar o diesel no motor para gerar um pouco de energia. Partilhamos o medo de picadas de cobras e aranhas venenosas.
Irmã Maria José relata: “À primeira vista ficamos impactadas com a dificuldade de chegar (no escuro) à Terra Firme, localidade onde deveríamos ficar. Isto porque, mesmo com a inundação, são 70 degraus abruptos (na seca 130), mal delineados na terra molhada. O barranco é enorme e, por mais que nos esforçássemos não conseguíamos subir. Voltávamos de onde saímos com malas e tudo. Após uns 10 minutos de infrutífero empenho três jovens desceram com lanternas e nos puxaram pelas mãos e, após carregaram nossas bagagens. Esta primeira experiência nos mostrou a capacidade de resistência desse povo valente, que ano após ano sobe e desce com compras e bagagens nesse barranco, o que para nós parece impossível de ser escalado. Ficamos hospedadas numa família, cuja mãe é líder numa comunidade e a filha na outra. Com alegria partilharam de sua pobreza!
Em Tira Fogo contemplamos a paixão, morte e ressurreição de Cristo no senhor Francisco, que com 96 anos encontra-se acamado em fase terminal de câncer, desabrigado e acolhido pela comunidade e cuidado com muito carinho pelo filho João; na dona Maria Venina, ela que é mãe e avó, perdeu tudo o que tinha construído em sua longa vida: casa, comércio e a pequena igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Como esquecer seu olhar carregado de choro e saudade? E ainda o senhor Raimundo que perdeu tudo o que tinha para sustentar sua família: plantação de bananas, pupunhas, macaxeira, animais, aves, TUDO, falta-lhe até as sementes e mudas para recomeçar. Este ano nem dá mais para plantar a melancia, é tarde demais.  
Precisa ainda de bastante tempo para que a situação se normalize. 
A celebração da quinta-feira santa instituição da eucaristia, sacramento da partilha e do serviço, selou quanto está se vivenciando nos abrigos improvisados do Baixo Madeira, nós vimos e recebemos em abundância do amor e da partilha de quem abriu com disponibilidade e carinho suas casas, suas vidas, espaço, terra e seus pertences para acolher quem precisava e nós missionários.
A celebração continuou na sexta-feira com a celebração da paixão e morte de Jesus. Quem melhor das palavras de dona Luisa pode resumir o que foi esta celebração: “Moro aqui há 50 anos e nunca, nunca vi a cruz andar por aqui!”.  A cruz de Cristo, sinal de salvação e do grande amor de Deus para conosco, foi carregada em todos os lugares acessíveis. Mulheres, crianças, jovens, idosos, homens, todos acompanhamos a cruz e rezamos em cada casa e barraca uma oração de bênção. Todos fizeram questão de acolherem a cruz: católicos e evangélicos. A celebração da Sexta-feira terminou com um filme sobre a vida de Jesus. Foi um dia simples marcado pelo silêncio e a oração.
acampamento provisório
O sábado foi um dia especial, de manhã nos reunimos para a preparação da vigília pascal, as crianças foram as que mais ajudaram, construímos chocalhos com material reciclável e sementes que recolhemos na mata. Ensaiamos cantos e ritmos para tornar a celebração da vigília a grande festa da ressurreição de Cristo, e assim foi. O anúncio da Ressurreição coincidiu com o dia no qual o Rio Madeira permitiu começar a limpeza das casas, a água desce e tem que se correr antes que a lama resseque. Alguém decidiu de levar sua casa, improvisada sobre uma balsa, de volta para estar perto de sua casa alagada.
O anúncio da Ressurreição de Cristo foi um sopro de verdadeira alegria, de vida e renovada esperança, para aqueles e aquelas que se encontram em situação de semi-isolamento. A celebração da Páscoa, a força que nos é dada pela paixão, morte e ressurreição de Cristo, nos permitiu entrar na dor e no sofrimento causado pela enchente e a fortalecer as consciências para que este povo tradicional não desista de lutar para seu direito à vida com dignidade, denunciando com coragem profética o que vem sofrendo. 

“As águas abundantes que descem das montanhas da Bolívia e do Peru aumentaram consideravelmente os reservatórios das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio. A construção dessas duas obras no Alto Rio Madeira, além de sofrer um atraso de mais de um ano, segundo especialistas, apresenta erros no estudo de impacto ambiental. A inundação das BRs 364 e 425 isolou o Estado do Acre, a região de Guajará-Mirim e toda a área do Abunã. O difícil abastecimento de suas populações, com combustíveis e alimentos, mostra a urgência de novos estudos.” (Carta da CNBB - Regional Noroeste, 29/3/14)

Na Bacia do Rio Madeira mais de 5 mil famílias foram atingidas, muitas delas estão desabrigadas e desalojadas, e mais de 100 mil pessoas na região não têm acesso a água potável. As águas do Rio Madeira e seus afluentes submergiram inúmeras plantações e animais, isto trouxe muito sofrimento e destruição e consequências que ameaçam a saúde dos moradores das áreas alagadas.

Alguns dados do impacto da enchente no Baixo Madeira ano 2014:
O rio começou transbordar no começo de fevereiro de 2014. O nível máximo da enchente chegou perto dos 20 metros, no começo do mês de abril. Desde metade de Abril as águas do Rio abaixam. 
Comunidades atingidas: Distritos de São Carlos, Nazaré, Calma e Demarcação e 34 das 41 comunidades. Cerca de 900 famílias. (fonte MAB – Porto Velho)

Consequências: Casas destruídas pela água e pelo aterramento com areia, Inundação e destruição das plantações, aumento dos preços (o preço da lata de farinha duplicou), contaminação da água (falta de água potável e doenças tais como leptospirose, tipo e cólera), falta de eletricidade, aumento do desemprego (foram despedidos todos os motoristas de barco escolar), morte de animais, peixes e aves, suspensão da escola (se tornaram abrigo); falta de comunicação, maior isolamento da região e dificuldade na participação no processo de reconstrução e decisões sobre o futuro da região. 

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