segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Violência agrária em Rondônia: a luta sepulta seus mortos

Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional 
Assessoria de Comunicação


NOTA PÚBLICA


É com ressentido pesar e revolta que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) denuncia mais duas mortes no campo em Rondônia. Mortes essas anunciadas. Dessa vez as vítimas foram Isaque Dias Ferreira, 34 anos, e Edilene Mateus Porto, 32, lideranças da Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental (LCP) e do Acampamento 10 de maio. Na última terça-feira, 13 de setembro, por volta das 08h00, o casal foi covardemente assassinado. O crime ocorreu próximo ao lote da família, no Acampamento 10 de maio, na região de Alto Paraíso, distante 211 km de Porto Velho (RO).

A cabeça de Isaque foi destroçada. Essa parece ser uma assinatura bastante singular quando a vítima é liderança. Atualmente, pelo menos seis lideranças da LCP tiveram a cabeça esmagada pelos executores.Será uma tentativa de destruir suas ideias e inibir a luta de outros trabalhadores?

O casal sempre estava presente nas audiências da Ouvidoria Agrária Nacional de Combate à violência no Campo, onde denunciava a grilagem de terras públicas na região e reivindicava o assentamento dos/as moradores do Acampamento 10 de maio. Muitas vezes o casal também relatou as ameaças sofridas e as constantes perseguições – tudo, porém, ficou apenas nas atas.

Somente neste ano já foram brutalmente assassinados quatro membros do Acampamento 10 de maio. No dia 24 de abril, os irmãos Nivaldo Batista Cordeiro e Jesser Batista Cordeiro foram mortos quando saiam de moto do acampamento. E agora o casal. Não se trata de simples coincidência. Corre a notícia de uma lista com nomes de integrantes da LCP a serem executados. Dos dez nomes desta lista, apenas dois ainda estão vivos, conforme relatos na região.
O imóvel rural ocupado pelos acampados é terra declaradamente pública. Trata-se de uma área desapropriada e destinada à Reforma Agrária desde 1995, conforme Ação de Desapropriação de Número 0003578-35.1994.4.01.4100 (TRF1). O Ministério Púbico Federal (MPF) mais de uma vez conseguiu suspender as liminares de reintegração de posse na área, por tratar-se de terras da União.

No ano de 2015, Rondônia despontou no cenário nacional como o estado com o maior número de mortes em conflitos no campo no país. Foram 21 pessoas assassinadas. O número mais elevado de assassinatos de camponeses e sem terra já registrado no estado desde 1985, quando a CPT começou a divulgar os registros destes fatos. O mais grave, porém, é que essa onda de violência continua. Nesses nove meses de 2016, das 47 pessoas assassinadas no campo em todo o Brasil, 16 são de Rondônia, 30% do total.
Enquanto trabalhadores e trabalhadoras pobres são assassinados, parte da mídia joga sobre eles a responsabilidade pela violência no campo no estado. A impunidade campeia solta. Nenhuma das mortes que ocorreram em 2015 e 2016 foi devidamente apurada e os culpados julgados. Tem-se conhecimento apenas da prisão dos acusados de executar um jovem acampando e pelo desaparecimento de outro. Fato ocorrido em janeiro desse ano na fazenda Tucumã.

Exigimos que o Poder Público em todas as suas esferas cumpra seu papel e que ofereça pessoal e estrutura para apurar as mortes e punir os assassinos. A terra pela qual o casal morreu lutando era pública.

O campo em Rondônia mais uma vez está manchado de sangue. A terra que produz os alimentos e sustenta a vida continua sendo palco de injustiças e mortes. Enquanto o latifúndio avança, a luta sepulta seus mortos e acolhe seus órfãos.

Porto velho, 19 de setembro de 2016.
Comissão Pastoral da Terra em Rondônia (CPT-RO)


Mais Informações:
CPT Rondônia: (69) 3224-4800
Cristiane Passos (assessoria de comunicação da CPT Nacional): (62) 4008-6406 | 9307-4305
Elvis Marques (assessoria de comunicação da CPT Nacional): (62) 4008-6414 | 9309-6781
Antônio Canuto (assessoria de comunicação da CPT Nacional): (62) 4008-6412

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Porto Velho: A RETOMADA DO GRITO DOS EXCLUÍDOS

“Estes que tem transtornado o mundo chegaram também aqui” (atos 17.6)
foto: Francisco Kelvin
            O dia 7 de setembro é marcado pelos Desfiles da Independência, em praticamente todas as cidades do país, há 22 anos através da Igreja Católica, realiza-se também o GRITO dos Excluídos. Excluídos deste sistema, das políticas públicas, dos campos, florestas e águas, das cidades e da dignidade.
O Grito dos Excluídos deste ano, trouxe como tema, A Vida em Primeiro Lugar, e  Lema: Este Sistema é insuportável: Excluí, Degrada e Mata. Foi destaque também os gritos de Fora Temer e por Diretas já. Em Porto Velho não foi diferente, ocorreram protestos contra o atual governo. 
foto:Francisco Kelvin
No dia em que alguns comemoram a Independência do Brasil, um grupo significativo de pessoas também se dirigi à avenida dos Imigrantes, em Porto Velho, com faixas e cartazes que expressam indignação, protestos, anseios e lutas, que denunciam que ainda somos um país dependente, herdeiros de um processo de colonização exploratório e que seguimos sendo colônia para o capital, com um modelo agroexportador, e entreguismos do patrimônio nacional e que tudo isso precisa ter um fim. 
foto:Francisco Kelvin
O povo não tem direito ao espaço público, a rua, a cidade, a manifestação: o grito dos Excluídos em Porto Velho foi impedido pela barreira de policiais que alegaram que o grupo atrapalhava o desfile, e deixava como única alternativa, seguir como excluídos, no último lugar da fila! Esse grupo é barrado no portão de entrada, quem disse que excluído aqui tem direito a alguma coisa? quem disse que nesse país onde a democracia é rasgada à luz do dia, o povo tem direitos de gritar suas dores? E quem se ouça a desobedecer, a  polícia tá aí para garantir a ordem e o progresso.  Desapontamento!? Não! Retomada das lutas, das ruas, da necessidade de reconstrução das forças populares, do papel da Igreja como formadora e mobilizadora do povo para a construção da justiça social nesta terra, para que o povo não a espere para somente depois da morte. 
foto:Francisco Kelvin

O Grito dos Excluídos, ensina, educa, e deve fazer mais fortes aqueles que marcham por ideais, e que se encontram nessa caminhada de sonhos e lutas, se reconhecem, e entendem que esse é o único caminho, e que precisamos ser mais e mais para quebrar as barreiras que nos impõe o silêncio, a perseguição e a morte!

        

A organização do grito dos Excluídos trouxeram  faixas centrais como:
1. Este Sistema é insuportável: Exclui, degrada, mata!
2. Saúde e Educação são direitos. Privatizar é golpe!
3. Mais Democracia! Golpismo e ditadura não!
4. Os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro(Papa Francisco)
5. As usinas de Santo Antônio e Jirau estão destruindo Porto Velho. Aumento do lago não!
6. Contra o aumento da idade para aposentadoria. Contra o fim do 13º Salário -Férias é direito, não tem negociação!
foto:site rondoniaovivo
7. Terra, Teto e Trabalho, aquilo por que lutam, são direitos sagrados!
8. A juventude quer viver! Não à redução da maioridade penal.
9. Vida em Primeiro Lugar!
10. Migrar não é um delito. É um direito! Aprovação do Projeto da lei migratório já!
11- Respeito aos direitos dos povos indígenas. Demarcação já!
12- Basta de violência contra as mulheres!
13- Menos ódio, mais respeito. Homofobia não! 
          É natural que se juntaram a esses gritos, muitos outros, sobre: a violência e as mortes no campo, entre elas a da Nicinha, contra os grandes projetos (usinas) e as violações de direitos, os malefícios dos agrotóxicos e transgênicos, o trabalho escravo, contra a redução da maioridade penal, contra as reformas trabalhistas e da previdência, contra a polícia militar. E é preciso ter a coragem de dizer, que num governo golpista, esses malefícios e retrocessos são parte integrante dos planos de governo, e que somente nas ruas seremos capazes de evita-los e garantir os direitos que nos são tão caros, e que custaram tantas vidas.

CPT-RO
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