9a Romaria da Terra e das Águas de Rondônia

O 10 de Julho de 2011 Rondônia celebrou a 9ª Romaria da Terra e das Águas na beira do Rio Mamoré, na Vila de Iata, de Guajará Mirim. Dando continuidade ao XII Intereclesial das CEBs de Porto Velho, a romaria recolheu a preocupação pelos 5 Gritos da Amazônia: A terra, as águas, as florestas, as cidades e as comunidades tradicionais.
Desde 1985, durante muitos anos, a CPT e as romarias da terra de Rondônia estiveram acompanhando os colonos, a luta dos pequenos agricultores que chegavam a procura de terra para viver. A luta pela terra, em conflito com os poderosos, a preocupação para se manter na terra e o cuidado com a natureza amazônica, que estava sendo devastada, foram as nossas principais preocupações. Hoje continuam os conflitos pela terra e a preocupação com uma agricultura sem venenos, e com mais respeito ao bioma amazônico.

Porém a construção das duas grandes Hidrelétricas do Madeira: Jirau e Santo Antônio, representa uma nova etapa e um novo ciclo econômico para a região. E como antes, indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais e de ribeirinhos, também são os mais afetados. Das 7.000 famílias afetadas por conflitos de terra em Rondônia em 2010, arredor de 5.000 foram atingidos pelas hidrelétricas do Madeira.

Por isso a escolha do local da 9ª Romaria foi uma vila ribeirinha, nas cabeceiras do grande rio amazônico: O Distrito de Iata, de Guajará Mirim. Também foi a primeira vez que a Diocese de Guajará Mirim sediava uma Romaria da Terra e das Águas de Rondônia. Os agentes de pastoral e as CEBs das paróquias de Guajará Mirim e Nova Mamoré, assim como a comunidade de Nossa Senhora das Graças de Iata, se volcaram na preparação da acolhida, da infraestrutura e da liturgia da Romaria. O CIMI mobilizou também os representantes indígenas de todo Rondônia e um numeroso grupo dos oro wari, o povo da serra dos Pacaás Novas, vindos das aldeias vizinhas das Terras Indígenas do Ribeirão, do Lages e de outras dos rios próximos de Guajará.

Não foi fácil, nem a preparação, nem a viagem dos romeiros para lá. Nem todos conseguiram chegar, alguns tiveram dificuldades para voltar: também faz parte da romaria! Guajará Mirim é uma cidade histórica da fronteira, situada na divisa de Brasil com Bolívia, as margens do Rio Mamoré, localizada num extremo de Rondônia Isto significou que alguns romeiros tivessem que viajar mais de 1.000 km. para chegar e outro tanto ara voltar, descobrindo uma parte nova do estado. Os presentes de 2.800 a 3.000 romeiros, foram menos que nas outras romarias. porém com muitos mais ribeirinhos e indígenas. E também muitos participantes das CEBs de Porto Velho, pois além de ser mais próxima, a cidade de Porto Velho está sofrendo muito com a construção das hidrelétricas. A lembrança dos mártires da terra e das águas continuou a motivar nossa luta e nossa esperança.

O local escolhido da Vila de Iata estava repleto de significado, pois é uma das comunidades que será parcialmente alagada, se continuar a construção das outras barragens previstas no Complexo do Rio Madeira: a UHE de Cachuela Esperanza, no Rio Beni, na Bolívia, e a UHE binacional de Guajará Mirim, na Cachoeira do Ribeirão.

A Colônia Agrícola de Iata foi criada na época do presidente Getúlio Vargas. Nas proximidades, meio século depois, já não existe mais mata virgem. A concentração da terra em poucas mãos e a pecuária predomina. Um grupo de sem terra acampado nas proximidades, na Serra do Ouro, além de lutar para conquistar a terra reconcentrada pelo latifúndio, têm que lutar também para devolver a fertilidade a terra, degradada por anos de desmatamento e de pecuária.

A 9ª Romaria foi uma alegre e comprometida celebração de fé, cantando e rezando junto com nossos pastores de Rondônia: Dom Geraldo Verdier, bispo diocesano de Guajará Mirim, Dom Bruno Pedron, de Ji Paraná; os representantes de Dom Moacyr Grechi, de Porto Velho; Dom Antônio Possamai, que tinha redigido a Oração da Romaria; e Dom Bendito Araújo, o novo bispo coadjutor de Guajará, recém chegado na região e que na Romaria se apresentou ao povo. Não faltaram os pastores Allan e Mauri, este último pastor sinodal da igreja luterana (IECLB) na Amazônia, sinalizando a dimensão ecumênica que sempre tiveram as nossas romarias. Dom Geraldo, Dom Antônio e Dom Moacyr, os mais anciãos, receberam a final da celebração da eucaristia uma homenagem, por mais de trinta anos de compromisso e de entrega para este povo.

Muitos desafios continuam a nossa frente. Porém a caminhada até as águas do grande Rio Mamoré, que junto ao Beni da início ao Rio Madeira, nos enraizou na história dum povo que já sofreu a conquista dos portugueses, que remontavam as cachoeiras; a estrada de ferro Madeira-Mamoré, do ciclo de exploração da borracha; da colonização e do êxodo agrícola; do garimpo do ouro e agora, a construção das grandes barragens do Madeira. Com as camadas do limo fecundo que desce das geleiras dos Andes, a Amazônia vai incorporando novas camadas do povo, se juntando nas comunidades: indígenas, seringueiros de origem nordestino, pequenos agricultores sem terra de todos os estados, enxotados pelo agronegócio. E agora também novos migrantes: operários e barrageiros, explorados pelas usinas. Povo que luta e se dá as mãos contra os inimigos comuns, na defesa da Vida dos povos da terra, das águas e das florestas, em defesa da Mãe Terra e de nossos rios, comprometidos em fraternidade com o cuidado com a Criação de Deus na Amazônia, nesta parte do Planeta que também “Geme em dores de parto” (RM 8, 22), esperando a criação da Nova Terra e do Novo Céu, o Reino de Deus presente em meio de nós.

Josep Iborra Plans, zezinho

Cpt Rondônia.


Veja algumas imagens da Romaria:











Chegada dos romeiros Foto Lucimá


Abertura da caminhada da 9a Romaria.


Na frente vemos Dom Geraldo Verdier, bispo diocesano de Guajará Mirim
e o Pastor Alan, da Igreja Luterana (IECLB) de Porto Velho



O Povo reunido na Segunda Linha do Iata
chegava de ônibus das paróquias de Rondônia,
depois de serem acolhidos em Nova Mamoré 

A água e o Verde: Vida do Planete. Foto Lucimá




Como na vida, na Romaria ninguém caminha sozinho.


Bendita e lovada seja esta santa romaria...

Foto Lucimá



Como Moisés, diga ao povo: Avance!


As Comunidades Eclesiais de Base (CEBS) retomaram
os Cinco Gritos do 120 Intereclesial de Porto Velho

A vila de Iata recebia os romeiros
vindos dos quatro cantos de Rondônia.




Chegando na beira do Mamoré, perto do começo do rio Madeira.


Foto: Lucimá

Os indígenas presentes na romaria.



Os indígenas recebem os romeiros com um ritual
perto das águas do grande rio ameaçado pelas hidrelétricas.


Encenaçãoo no placo. Foto Lucimá



Comunidades e paróquias enviaram os seus representantes.

As sombras agradecidas das árvores da praça de Iata


Os indígenas em assembléia dentro da Igreja prepararam a Romaria.

Um lugar antigo, chéio de árvores acolheu os romeiros.


A celebração eucarístioca, presidida pelos bispos de Rondônia.

O Pastor Sinodal do IECLB, Pr Mauri,
e o coordenador do Projeto Padre Ezequiel.


O povo celebra acolhido pelas sombras das árvores.

Romairos e romeiras da terra e das águas de Rondônia ouviram
o testemunho dos atingidos pelas barragens, dos indígenas e pequenos agriculores dos movimentos sociais.



Ao pé da cruz, os sofirmentos do povo e da natureza agredida foram ouvidos.


O testemunho dos mártires da Amazônia.


Prontos para receber a bênção final.
Vindos de longe, depois duma noite de viagem,
a romaria estava a continuar na viagem de retorno.


Represas del Río Madera: la resistencia desde el Ecologismo de los Pobres. “9ª Romaria Da Terra e Das Águas de Rondônia”


Mónica Vargas Collazos.
Observatori del Deute en la Globalització

12 de julio de 2011

" Dan las siete de la mañana del domingo 10 de julio de 2011 en el Distrito de Iata, en el amazónico Estado de Rondônia, Brasil. Se van congregando mujeres, hombres y niños al borde del camino. Se les recibe entregándoles una tacita para el agua y un folleto de cánticos. Entre los carteles que traen, se distinguen fotos de luchadore/as sociales que perecieron en la Amazonía en defensa de los derechos de los Pueblos, como Chico Méndez. Una hora más tarde, más de tres mil personas inician la “Romaria Da Terra e Das Águas de
Rondônia”, una marcha popular que constituye una auténtica expresión de lo que Martínez Alier denomina el “Ecologismo de los Pobres”. Es la novena vez que se congrega esta manifestación impregnada de un profundo sentido social y ambientalista, convocada por la Diócesis de Guajará-Mirim, la Diócesis de Ji-Paraná, el Arzobispado de Porto Velho, la Comisión Pastoral de la Tierra, el Consejo Indígena Misionario y el Sínodo Luterano da Amazônia. Las y los participantes son de comunidades y parroquias de todo el Estado, así como representantes de los 54 Pueblos Indígenas de Rondônia que integran la Coordinación de
Organizaciones Indígenas de la Amazonía Brasileña (COIAB), del Movimiento deAfectados por las Represas (MAB), del Movimiento de los Sin Tierra (MST), del Movimiento de los Pequeños Agricultores (MPA), de la Pastoral de los Migrantes y de varias otras organizaciones.

Convocada con el objetivo de defender los ríos y territorios de la Amazonía, “romeras” y “romeros” marchan hasta el distrito de Iata, sobre las riberas del Río Madeira, en frente de la Cachuela del Rio Mamoré. Del otro lado del inmenso río asoma la selva boliviana, mejor preservada que la brasileña pero en igual peligro de destrucción. En efecto, es aquí donde se podría construir la cuarta hidroeléctrica del “Complejo del Río Madera”…"



CARTA DOS POVOS INDÍGENAS POR OCASIÃO DA ROMARIA DA TERRA E DAS ÁGUAS

“Não poderíamos deixar de marcar presença nesta Romaria que fala sobre a Terra e as Águas, pois estamos muito preocupados com a vida do nosso planeta” ressaltou a indígena, Eva Canoé. Os indígenas chegaram ao local do evento, no Iata distrito de Guajará-Mirim desde o dia 8 de julho, onde estudaram e refletiram sobre o tema da romaria. E no dia 10, abrilhantaram o evento com a participação na mística das águas que se deu à beira do rio Mamoré. A carta abaixo demonstra a preocupação dos povos indígenas em relação a natureza e outros fatores que comprometem a vida e subsistência dos povos indígenas.

Nós representantes dos povos indígenas Oro Waram, Oro Waram Xijeim, Arikapu, Oro Mon, Cujubim, Djeoromitxí, Tupari, Kassupá, Aruá, Kithaulu (Nambikwara), Wayoró, Oro Nao, Canoé e Makurap refletindo sobre nossa Espiritualidade a partir dos elementos Naturais e Sagrados a Terra, a Água, o Ar e a Floresta, neles estão toda a nossa história de Vida.
A Terra é mãe para nós. Nós somos os donos da terra. Precisamos da terra para viver com os nossos filhos e netos. Às vezes os brancos falam que são os donos, mas é mentira Água é vida, sem água ninguém vive. É como o leite da nossa mãe, fonte e garantia de nossa continuidade.
A floresta é nossa economia, nossa riqueza e morada de nossos ancestrais, fontes de nossos rituais (erva medicinais, a caça, as frutas e outros). Dela temos o ar puro que respiramos. O ar é vida, saúde e unidade entre os seres vivos – os vegetais, as pessoas e os animais. A terra está ameaçada por invasores, pelos impactos ambientais, poluição e desmatamentos das florestas. As nossas águas vêm sofrendo com as grandes usinas hidrelétricas e PCHs. Somos contra essas Usinas e não queremos a do Ribeirão. Quem sofre somos nós e também os peixes: piranha, pacu, surubim e traíra. Essa é nossa preocupação, bem como a preocupação de nossos pajés.
Outras preocupações é o desmatamento, as queimadas, os projetos de plano de manejo, as barragens, os grandes agricultores, fazendeiros, madeireiros, garimpeiros, o projeto de crédito de carbono em nossas terras, o agrotóxico, rodovias, pescadores e outras formas violentas que ameaçam e destrói nossa floresta. Por isso, pedimos a todos e a todas que se unam numa só luta em defesa de nossas terras e águas fonte de vida para todos nós.
Para as nossas futuras gerações vamos repassar nossas culturas, costumes, tradições, mitos, rituais, ervas medicinais, artesanatos e a língua materna. Não deixar pessoas estranhas empatar as culturas indígenas e pajelança, a comida e as histórias tradicionais, e sim dizermos que temos orgulho de sermos indígenas, porque nós indígenas somos fortes e lutamos pelos nossos direitos. Unir nossas forças para juntos continuarmos as nossas tradições e o nosso respeito, pois somos indígenas, Brasileiros natos.
Não deixar que as religiões (igrejas) tomem de conta de nossas pajelanças. Lutar pelosnossos direitos para que os governantes venham respeitar as futuras gerações e para que não sofram o que a gente sofreu até os dias atuais, pois os brancos desde 500 anos atrás querem nos exterminar, mas não vão conseguir, pois estamos aqui resistindo e persistindo e que essa força seja repassada para o futuro de nossos filhos.
Texto e Foto: Arquivo CIMI/RO
INFORMATIVO - CIMI-RO – JULHO/AGOSTO/SETEMBRO – 2011 - N° 22